MEGAZEN

Voar não é só com os pássaros. O que seria um desrespeito à capacidade flutuativa e alada dos poetas e imaginadores. O importante é a própria sombra afastando do corpo. Os saltadores e os budistas levitadores sabem disso. Mas o corpo tem que voltar e cair na real. Conforme a gravidade. Nem as aves ficam eternamente no ar.

O avião é uma ave de alumínio. É claro que todos sabem do que eu tou falando. Airbus, Air France, 447.

Até hoje eu ainda acho improvável um charutão de 300 toneladas sair comendo léguas e nuvens pelos céus afora. Eu nunca tive um pingo de medo. Nunca fui de lutar contra o imponderável. Mas toda vez que acontece uma coisa triste como essa, nos vem a cruel e fragilizante realidade. E o nosso desejo de voar arrefece, assustado. Até voltarmos a confiar plenamente nas estatísticas e esquecermos os destroços boiando no mar de nossas memórias.

Eu e Felipe Falcão passamos de carro pela Lagoa, no Rio, uns anos atrás. Dudu Falcão, irmão de Felipe, chamou atenção de uma placa publicitária onde se lia: Power Yoga. Fiquei pensando naquilo. Yoga pra mim sempre representou meditação, harmonia e paz interior. De repente: Power Yoga. Um plus publicitário decerto querendo apelar para um novo filão energético. Mas ficou na minha cabeça. Escrevi MEGAZEN. Sobre uns acordes de Felipe ao teclado. Só agora no “Tem Juízo…” gravei a música, última do disco. A letra diz assim:

MEGAZEN (L. Queiroga – F. Falcão)
“O monge veio de longe ensinar
Que a lei de Isaac Newton é superstição
Todo mundo pode levitar
Quem finge que tá satisfeito em andar no chão
Vive de ilusão
Deixa a voz do monge te levar pelo ar
Mais alto que um trem, Megazen
Estação primeira do além.

Acelerando as asas no pulsar
De cada músculo do seu coração
Você pode decolar
E visitar parentes no Nepal, amigos no Japão
Só na vibração
Deixa a voz do monge te levar pelo ar
Mais alto que um trem, Megazen
Estação primeira do além
Pelo ar, memória rã
Nada é repetido, Megazen
Todo mundo vive de ilusão.”

Até o próximo voo. Ave.

Anúncios

7 Respostas

  1. Quem viaja pela ilusão
    não enxerga a cor
    lê o que está escrito na camiseta
    e teima em ser senhor…

    (michel edere) – Música: Pedágio – Banda: Chimpanzés de Gaveta

    2009/06/16 às 14:42

    • Fábio Passadisco

      Lula… é bem legal conhecer as histórias das músicas, como elas foram criadas.

      Mega abraços!

      2009/08/14 às 08:37

  2. IvaldoJr.

    Virou o hino do meu dia-a-dia… Roubaram meu carro dentro de minha garagem… ele não tinha seguro… e pra passar as dores da chatiação ouvia Megazen… correr correr, pular… voar! sentar, sentar…sair voando!

    2009/07/30 às 21:00

  3. Excelente trabalho. Conto com a oportunidade de entrevistá-lo.

    Um abraço

    2009/10/02 às 19:58

  4. Alexandre Pontes

    Esse blog é massa demais, cara…

    2009/11/20 às 12:36

  5. Emerson Leal

    Lula,

    O primeiro show que vi seu foi num projeto chamado Julho em Salvador, não sei mais em que ano. Cê tava lançando o “Aboiando a vaca mecânica”. Pirei. Tô ouvindo agora “Melhor do que eu sou” e as outras do seu disco novo. Você é foda, véio. Eu sou baiano, mas moro no Rio; quando é que cê vem aqui de novo? Que massa que cê fez esse blogue, véio! Parabéns!

    2010/02/15 às 18:26

  6. cara vc é um compositor fuderoso, vc não descreveu como ou por que compos a música, simplesmente vc quase faz outra letra lá em cima- se é que não fez- essa é verdade.

    grande abraço!

    2010/03/02 às 19:34

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s