Direto do ESTADO DE MINAS (por João Paulo).

Seção : Música – 19/04/2009 16:50
Lula Queiroga tem talento e usa

O terceiro disco solo de Lula Queiroga ganhou um nome curioso: Tem juízo mas não usa, título da canção feita em parceria com Pedro Luís, o da Parede. Lula é bom com as palavras. Suas letras são construídas com imagens pouco comuns, vocabulário que mescla cotidiano e palavras vindas de outro universo, construções que dialogam com a melodia, esticando e cortando o fluxo do pensamento. Lula é muito bom de música. Suas canções são modernas sem medo de flertar com maracatu, samba e ciranda. Orquestra, instrumentos e ruídos na mesma levada. Tudo é som. Som é tudo.

Dos discos anteriores (Aboiando a vaca mecânica e Azul invisível vermelho cruel), o novo trabalho mantém a sonoridade que parece soprar do Nordeste em direção ao mundo, uma fusão de rock, eletrônica e música popular brasileira. O cosmopolitismo desassombrado dá as caras nas letras e na ambientação sonora. Assim, as canções falam tanto de tristeza amorosa e de depressão como de sentimento de exílio e estranhamento.

Contador de histórias, Lula Queiroga elege personagens da casa-grande e senzala. É o caso de Geusa, anunciada por poema de Câmara Cascudo, e que exibe o apartheid social brasileiro nas roupas que constrangem e amenizam a culpa da classe média. O cheiro é o tempero de Geusa, alfineta. Mas o cheiro também reflete na fruta em Manga, graviola, hortelã, que aconselha: Colírio no olho da favela. Quem conta histórias anda, deambula, navega e corre. Lula está sempre em movimento. E nessas viagens pode descobrir que Via Láctea cabe dentro de uma dúvida, Capibaribe cabe dentro de uma lágrima.

Moderno também é romântico. Mas um romantismo meio cafajeste, como em Melhor do que sou Pensando alto), com jeito de cabaré, com sinceridade cabotina que não esconde, pensando alto, a melhor forma de seduzir pela falta. A estação do metrô, em Fulana, é o cenário cinematográfico para um rompimento contemporâneo. Mas canções de amor não precisam ser sempre intensas. Muitas vezes jogam para dentro e confessam: No raso também se afoga.

Com vários escudeiros do clã Queiroga, há uma familiaridade que irriga o disco (como os anteriores) de camaradagem estética que aponta para os novos enquanto abraça Lenine, Alceu Valença e Spok. Os instrumentos acústicos, sobretudo sopros ligados à cultura da música de rua, convivem com guitarras e programações e sons aleatórios, mas sempre significativos. Parece um espaço arrumado com a mão: aqui um ruído, ali uma vibração: está pronto o cenário. A partir daí, é só distribuir a poesia.

Link para a matéria original:
http://www.new.divirta-se.uai.com.br/html/sessao_19/2009/04/19/ficha_musica/id_sessao=19&id_noticia=10212/ficha_musica.shtml

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s