DAS CANÇÕES DO DISCO NOVO

Ouvi essa frase de alguém. Tem Juízo mas não usa. Provavelmente do meu pai, Luiz Queiroga, que era um colecionador de jeitos de falar.

Apaixonado por expressões populares, inundou minha infância e adolescência com pequenas pérolas da fala. Tenho milhares delas boiando na memória. Talvez tenha sido ele. Tipo:

– Fulana é uma menina que tem juízo.
– Tem juízo mas não usa.

Eu tava no Rio e marquei com meu compadre Pedro Luis, pra gente se encontrar na casa dele, na Lagoa. Levar um som, ouvir coisas, o primeiro álbum de Roberta Sá que tinha uma música minha “ Ah, se eu vou”. O disco ainda nem havia sido lançado e no qual ele tinha produzido algumas faixas junto com A Parede.

Pedro, bom de tudo, tava estudando reco-reco (no tempo em que reco reco tinha hífen).

Gravamos alguns sons e textos no computador. Era sábado, dezembro, uns quatro anos atrás. Pedro me copiou um cd daquela sessão. Trouxe pra Recife. Perdi. Tempos depois Pedro também perdeu o HD do computador dele e o material ficou 3 anos esquecido. Até eu achar, numa bolsa dentro do meu armário, dentro da caixa de outro cd, embaixo do cd original. Tava escrito : Lula/Pedro Rio 2004.

Como tava em plena febre musical por causa das gravações do Tem Juízo (que claro, não tinha esse nome porque a música ainda nem existia) escutei bem alto, subwoofer no talo.

Arrastei uma melodia. Era um samba. Reco em primeiro plano. Vozes ao fundo. Ouvi 30 vezes. Fui começando a dedilhar frases mentais tentando fazer a letra parecer com a fonética das vozes que trançavam a melodia. Chamei a galera e gravamos no mesmo dia.
Liguei pra Pedro tentando disfarçar a euforia.

– Achei ! Acabamos de terminar nossa nova parceria e desconfio que tá ficando do caralho !

Ele a princípio não entendeu nada.

O samba tem uma levada sacudida, cadenciada. Percussão polirítmica e letra psicodélica. Homenageia o fim do mundo, saúda o aquecimento global e pede passagem. O ser humano não é responsável por foder a natureza. Somos, na verdade, irresponsáveis por natureza. Não tem como evitar, nem pronde correr.

“Se eu olho pro sol é pra cegar o juízo/ Enquanto o gelo derrete/ a água tá subindo/ O chão/ sacudindo/ A gente tem juízo mas não usa.”

Lenine gravou voz aqui no estúdio da Luni, mergulhou no clima malemolente, diria indolente da canção. Deu trato de luxo a esse híbrido de samba. Também tem Nena nos vocais deslizantes, parece água de chuva descendo ladeira. Guitarras safadas, moleques, transviadas.

No fim entra o corão caudaloso, tradicional.

Como se fôssemos todos um grande cordão de cúmplices da sacanice planetaria. Orgulhosos da nossa própria fuleiragem.

E quem escutar a música até o fim, vai ouvir o violão de aço de Lucky, brincando de ser Novos Baianos.

Depois do show do Canecão, no finzinho de 2007, Dani, minha mulher arretada e produtora executiva , sugeriu que a gente devia mudar o nome do disco. Ao invés de “Tudo Enzima”: Tem Juízo mas não usa. Braulio Tavares, meu mestre do discernimento, concordou. Então mudei. Em pleno Guanabara, no Baixo Leblon. Meia noite. Calor humilhante. Garçom, outro chopp.

Anúncios

4 Respostas

  1. Evie

    O lançamento na Passa foi adiado? Que pena, já tinha uma puta galera combinando pra ir…

    2009/03/16 às 20:18

  2. Lulinha

    Esse é o Lula Queiroga que conheço!!
    É um ser capaz de nortear a mente, nas horas menos improváveis possíveis e focar, desbravando as engrenagens mentais, produzindo idéias brilhantes.
    Lembro-me, certo dia, da idéia de produzir, no passeio de um exclusivo e retórico bar, econdidinho lá no poço da panela, mesas redondas, com celebridades variadas, convidadas, incomunicáveis naquele recinto, discutindo sobre um mesmo tema… Depois faría-se um aparato geral, dos variados tópicos abordados nesse tema, formando uma idéia central! Putz!!! Garçon, mais uma dose de “Wisck”, pelo amor de Deus!!! kkkkkk
    Perfeito!!!
    Foi nesse dia, que conheci a mente incansável desse ilustre cidadão, e percebi o quão ilimitado ele é!!
    Por esse post, podemos perceber o seu dom, de transformar o cotidiano, em poesia, em música!! A facilidade de unir o útil, normalmente desprezado por ser comum, com a incensatez desmedida da criatividade, o torna capaz de se destacar no meio intelectual.
    “Tem juízo mas não usa” fatalmente será mais uma obra prima da autêntica, inigualável e rica musicalidade brasileira!
    Parabéns Grande Queiroga!!
    E parabéns, também, aos nossos humildes ouvidos tão merecedores de ricas notas cifradas!!

    2009/03/18 às 02:20

  3. Fábio Passadisco

    Lula, tô ficando viciado nesses seus textos…

    2009/03/18 às 07:22

  4. Pessoinha

    Putz, é ótimo conhecer o processo de criação. Dá novos sentidos pra música que a gente ouve.

    2009/03/22 às 19:37

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s