MEGAZEN

•2009/06/08 • 2 Comentários

Voar não é só com os pássaros. O que seria um desrespeito à capacidade flutuativa e alada dos poetas e imaginadores. O importante é a própria sombra afastando do corpo. Os saltadores e os budistas levitadores sabem disso. Mas o corpo tem que voltar e cair na real. Conforme a gravidade. Nem as aves ficam eternamente no ar.

O avião é uma ave de alumínio. É claro que todos sabem do que eu tou falando. Airbus, Air France, 447.

Até hoje eu ainda acho improvável um charutão de 300 toneladas sair comendo léguas e nuvens pelos céus afora. Eu nunca tive um pingo de medo. Nunca fui de lutar contra o imponderável. Mas toda vez que acontece uma coisa triste como essa, nos vem a cruel e fragilizante realidade. E o nosso desejo de voar arrefece, assustado. Até voltarmos a confiar plenamente nas estatísticas e esquecermos os destroços boiando no mar de nossas memórias.

Eu e Felipe Falcão passamos de carro pela Lagoa, no Rio, uns anos atrás. Dudu Falcão, irmão de Felipe, chamou atenção de uma placa publicitária onde se lia: Power Yoga. Fiquei pensando naquilo. Yoga pra mim sempre representou meditação, harmonia e paz interior. De repente: Power Yoga. Um plus publicitário decerto querendo apelar para um novo filão energético. Mas ficou na minha cabeça. Escrevi MEGAZEN. Sobre uns acordes de Felipe ao teclado. Só agora no “Tem Juízo…” gravei a música, última do disco. A letra diz assim:

MEGAZEN (L. Queiroga – F. Falcão)
“O monge veio de longe ensinar
Que a lei de Isaac Newton é superstição
Todo mundo pode levitar
Quem finge que tá satisfeito em andar no chão
Vive de ilusão
Deixa a voz do monge te levar pelo ar
Mais alto que um trem, Megazen
Estação primeira do além.

Acelerando as asas no pulsar
De cada músculo do seu coração
Você pode decolar
E visitar parentes no Nepal, amigos no Japão
Só na vibração
Deixa a voz do monge te levar pelo ar
Mais alto que um trem, Megazen
Estação primeira do além
Pelo ar, memória rã
Nada é repetido, Megazen
Todo mundo vive de ilusão.”

Até o próximo voo. Ave.

O CÉREBRO NÃO COLHE FRUTOS NO CANTEIRO DO ÓCIO.

•2009/05/13 • 4 Comentários

De volta à blogosfera. Novidades pra todo lado.

Tem Juízo Mas Não Usa começa a deslanchar. A tiragem inicial do disco já tá se esgotando. Os shows da UFPE, os dois do Rival (RJ), o Cineport de João Pessoa, foram apresentações memoráveis. O público ultra receptivo nos obrigando a fazer o melhor. Do palco eu percebo as caras das pessoas, curiosidade e vibração. Sempre bis apoteótico, free style.

As datas de Porto Alegre e Florianópolis caíram. Ficou pra julho.

Semana que vem, SP. Dia 21 no Sesc Pompéia, 23 no Sesc Araraquara. Estamos recebendo convites de outros lugares, a coisa tá engrenando.
Hoje saiu um puta matéria n’O Globo. O disco vem sendo bem aceito. Tá criando onda e gerando assunto.

O cenário feito de fotos vem evoluindo a cada dia. As fotos do Flickr cada vez mais apuradas. Graças a vocês já temos um puta galeria de retratos de várias partes do mundo. E o telão enchendo.

Passei uns dias em Sampa, voltei segunda. SP transforma um pequeno final de semana numa overdose de eventos. Tirando o tempo perdido no trânsito, voltei empapuçado de informações, novidades, idéias. São Paulo é um gigantesco painel cultural. Basta ir ao lugar certo, estar com pessoas bacanas.

Fiquei (eu e a torcida do Corinthians) chapado com a exposição de Vik Muniz no MASP. O cara é absurdo. Incansável e absolutamente original. Ele criou com seus trabalhos uma Disneylândia do olhar. Monumental e amarradíssima conceitualmente. Levaria horas contando o que eu senti, concluí, estarreci, choquei, babei. É uma postura tão inovadora diante dos dogmas da arte visual que finda por explodir o conceito tradicional: pintura, escultura, instalação. Tudo isso está ali mas o tal do Vik vai mais longe. Ele fotografa suas peças. Toda a expo é feita de fotos. Enormes, minúsculas, tanto faz. A obra é fotografada e depois destruída. No entanto o impacto é retumbante. Numa das plotagens escritas na parede, ele diz: “ O CÉREBRO NÃO COLHE FRUTOS NO CANTEIRO DO ÓCIO.” É isso aí, caro Vik. O mundo é seu. Eu e Dani saímos de queixo caído.

Numa mesma tarde, passamos na FNAC e na feirinha da Benedito Calixto. Milhares de coisinhas pra ver, mesmo se tratando de points diametralmente opostos, antagônicos. Cybershop x antiquário. Milhares de coisinhas baratinando nosso olhar.

Tomamos chope no Filial, na Vila Madalena. O boteco charmoso e concorridíssimo dos irmãos Altman. Helton estava lá esperando a gente. Encontrei lá meu grande brother Bruno Garcia, que há anos não via, e que está estreando uma peça em SP semana que vem.
Fomos tentar assistir ao Pequeno Cidadão no Pompéia, mas chegamos em cima da hora e a lotação tava esgotada. Deixamos discos pra Arnaldo, Edgar Scandurra e Antônio Pinto, grandes camaradas. É um espetáculo infantil diferenciado, com Arnaldo Antunes fazendo trilha ao vivo. Enfim, perdemos essa.

Mas ainda deu pra ver “O Calendário da Pedra”, na volta aos palcos da magistral Denise Stoklos. Melhor do que nunca. Um monólogo sagaz escrito por ela em 2001 mas de uma atualidade impressionante. Você não consegue desgrudar os olhos daquele magneto humano e seu afiadíssimo rigor cênico. Outra artista mundial brasileira que todo mundo merecia conhecer.

No domingo participei como convidado das três sessões d’O Teatro Mágico, no Itaú Cultural. Os caras fizeram 18 shows em 6 dias. O público dando voltas no quarteirão. Uma rapaziada bacana e empreendedora que conseguiu no talento e na raça criar um fenômeno de empatia com seu público. Lá encontrei Silvério Pessoa e GOG, um rapper de Brasília, queridaço. Os dois também deram canja nos outros dias de show.

Fernando Anitelli me chamou pra cantar com ele “Noite Severina” , “O Verbo e a Verba” e “Ah, se eu vou”. Fui super bem tratado pelo público. Brava galera de Osasco que espalha música e civilidade, bom caratismo e juventude para o seu imenso público Brasil afora. A crítica torce o nariz pra eles, mas eles não precisam de nada. Prensam seus próprios CD’s, DVD’s, são de uma independência surpreendente. Grandes caras. Fiquei feliz de conhecer melhor essa querida família. Gustavo, Fernando e toda a trupe: valeu o carinho e a atenção de vocês.

Segunda, 9 da manhã, o avião decolou e voltamos, eu e minha mulher cheios de maravilhas na cabeça e na bagagem. Até semana que vem, SP. Na segunda a gente volta de case e cuia com toda a banda. Vamos nessa. Canteiro do ócio é o cacete.

Direto do Estado de Pernambuco, do Recife, no bairro de Casa Amarela (sobre os dois posts abaixo).

•2009/04/20 • 3 Comentários

Obrigado, Minas. Obrigado, Ângela Faria. Obrigado, João Paulo. Obrigado aos mineiros. Estou emocionado.

Lula Queiroga

Direto do ESTADO DE MINAS (por João Paulo).

•2009/04/20 • Deixe um comentário

Seção : Música – 19/04/2009 16:50
Lula Queiroga tem talento e usa

O terceiro disco solo de Lula Queiroga ganhou um nome curioso: Tem juízo mas não usa, título da canção feita em parceria com Pedro Luís, o da Parede. Lula é bom com as palavras. Suas letras são construídas com imagens pouco comuns, vocabulário que mescla cotidiano e palavras vindas de outro universo, construções que dialogam com a melodia, esticando e cortando o fluxo do pensamento. Lula é muito bom de música. Suas canções são modernas sem medo de flertar com maracatu, samba e ciranda. Orquestra, instrumentos e ruídos na mesma levada. Tudo é som. Som é tudo.

Dos discos anteriores (Aboiando a vaca mecânica e Azul invisível vermelho cruel), o novo trabalho mantém a sonoridade que parece soprar do Nordeste em direção ao mundo, uma fusão de rock, eletrônica e música popular brasileira. O cosmopolitismo desassombrado dá as caras nas letras e na ambientação sonora. Assim, as canções falam tanto de tristeza amorosa e de depressão como de sentimento de exílio e estranhamento.

Contador de histórias, Lula Queiroga elege personagens da casa-grande e senzala. É o caso de Geusa, anunciada por poema de Câmara Cascudo, e que exibe o apartheid social brasileiro nas roupas que constrangem e amenizam a culpa da classe média. O cheiro é o tempero de Geusa, alfineta. Mas o cheiro também reflete na fruta em Manga, graviola, hortelã, que aconselha: Colírio no olho da favela. Quem conta histórias anda, deambula, navega e corre. Lula está sempre em movimento. E nessas viagens pode descobrir que Via Láctea cabe dentro de uma dúvida, Capibaribe cabe dentro de uma lágrima.

Moderno também é romântico. Mas um romantismo meio cafajeste, como em Melhor do que sou Pensando alto), com jeito de cabaré, com sinceridade cabotina que não esconde, pensando alto, a melhor forma de seduzir pela falta. A estação do metrô, em Fulana, é o cenário cinematográfico para um rompimento contemporâneo. Mas canções de amor não precisam ser sempre intensas. Muitas vezes jogam para dentro e confessam: No raso também se afoga.

Com vários escudeiros do clã Queiroga, há uma familiaridade que irriga o disco (como os anteriores) de camaradagem estética que aponta para os novos enquanto abraça Lenine, Alceu Valença e Spok. Os instrumentos acústicos, sobretudo sopros ligados à cultura da música de rua, convivem com guitarras e programações e sons aleatórios, mas sempre significativos. Parece um espaço arrumado com a mão: aqui um ruído, ali uma vibração: está pronto o cenário. A partir daí, é só distribuir a poesia.

Link para a matéria original:
http://www.new.divirta-se.uai.com.br/html/sessao_19/2009/04/19/ficha_musica/id_sessao=19&id_noticia=10212/ficha_musica.shtml

Direto do ESTADO DE MINAS (por Ângela Faria).

•2009/04/20 • Deixe um comentário

Seção : Música – 19/04/2009 16:42
Lula Queiroga lança novo CD Tem juízo mas não usa

Enquanto preparava o lançamento do disco Tem juízo mas não usa, o compositor pernambucano Lula Queiroga pediu a internautas que lhe enviassem fotos para o cenário do novo show. Pela internet, chegaram centenas de colaborações de várias partes do mundo – devidamente incorporadas ao site do músico. Desde março, estão na rede cenas do início da turnê, registradas em apresentação no teatro da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Em poucas semanas, Lula contabilizou 42 mil acessos de gente interessada em conferir o trabalho dele.

Além de estimulante, essa visibilidade virtual é necessária, principalmente diante da crise, pois a “marolinha” do conterrâneo presidente foi um tsunami nos planos do xará cantor. A turnê de lançamento do disco teria o apoio de poderosa empresa, mas tudo se complicou. Com a cara, a coragem, belas canções e “pequenos micropatrocínios”, como ele diz, Lula Queiroga caiu na estrada. Neste fim de semana, cantou para os cariocas; em maio, tem show agendado em São Paulo. Araraquara, Santos e Porto Alegre estão na agenda.

Lula Queiroga tem talento e usa

Encantado com o Brasil que redescobriu ao participar do Projeto Pixinguinha, o compositor se entusiasma em cantar tanto nas grandes capitais como em Caxias do Sul. “Desbravar é bonito”, afirma. Nada mais gratificante do que receber fãs de Ponta Grossa pedindo autógrafos depois do show. “Nem sei onde eles conseguiram arrumar meus discos”, confessa.

Lula mora no Recife, onde comanda a produtora Luni – verdadeira incubadora nordestina de talentos. Daqueles estúdios saem discos – inclusive os três do chefe –, comerciais, clipes, programas educativos, documentários e curtas-metragens. Parceiro e compadre de Lenine, ele é autor de Dois olhos negros, A rede, A ponte e Alzira e a torre. Com o sobrinho Yuri, produziu o álbum Qual o assunto que mais lhe interessa?, de Elba Ramalho, indicado ao Grammy Latino no ano passado. Suas canções estão na voz de Elba, Zélia Duncan, Pedro Luís e A Parede, Ney Matogrosso e da dupla mineira Milton Nascimento-Marina Machado. Recentemente, o compositor se juntou a Roberto Berliner para filmar o elogiado documentário Pindorama – A verdadeira história dos sete anões, sobre uma trupe circense.

Multiartista é pouco para definir Lula Queiroga. Rapazinho, ele escrevia para o programa de Chico Anysio na TV Globo. Foi colunista de música o Diário de Pernambuco. Cantor, compositor, produtor e cineasta, talvez fosse mais apropriado chamá-lo de usina de ideias. Resumindo: é gente que faz. Sem ficar chorando pelos cantos o leite do patrocínio derramado.

TRILOGIA

Tem juízo mas não usa completa trilogia com Aboiando a vaca mecânica (2001) e Azul invisível vermelho cruel (2004). O artista mantém saudável coerência: multiforme, a obra de Queiroga sempre surpreende. O galego é homem da palavra – seus versos, sem nenhum favor, estão entre os mais criativos da MPB contemporânea. Para ele, canções são como organismos vivos. No caso do último CD, foram criadas nas sessões de ensaio no Recife. O próprio álbum foi vítima de mutação: no início, chamava-se Tudo enzima. Acabou rebatizado depois de uma apresentação no Rio, quando a canção Tem juízo mas não usa conquistou o público. Composta com Pedro Luís, ela literalmente sumiu no tempo. Foi registrada no computador, mas o HD de Pedro queimou. O CD que Lula levara para o Recife desaparecera dentro de uma bolsa e só foi resgatado anos depois.

Lula chama suas canções de mosaicos poéticos. Antenado no dia a dia de seu bairro e do mundo, ele cria ficções. Enquanto ele canta, dá para “ver” os versos, devidamente harmonizados com ambientações sonoras estranhamente belas. Há surrealismo e impasses existenciais por ali. Ecos de cirandas, maracatus, Mutantes e Novos Baianos se fundem às guitarras dos jovens Eduardo Braga e Yuri Queiroga, às belas e estranhas programações de Felipe Falcão, Yuri e Tostão Queiroga.

Difícil encaixar as canções de Lula numa prateleira: elas não se limitam a ser rock, MPB, ciranda, balada, samba, bossa nova ou maracatu eletrônico. Raiz e antena, o pernambucano diz que seus três discos são completamente diferentes, mas traduzem a mesma coisa. Para o “caçula”, ele convocou um time de craques: Lirinha (Cordel do Fogo Encantado); maestro Spok, genial saxofonista que toca frevo como ninguém; Toninho Ferragutti; Bactéria (Mundo Livre S/A); Pupillo (Nação Zumbi); Jr. Tostoi. Além de talentos da novíssima geração pernambucana, como Felipe S. (Mombojó) e China (ex-Sheik Tosado), batem ponto os veteranos Alceu Valença e Lenine.

Aos 49 anos, Lula diz que a maturidade vem “compensar a juvenília eterna”. A identificação com a moçada é natural, nem passa perto de armações oportunistas. Ele viu crescer o mombojó Felipe S., com quem divide o vocal na delicada Melhor do que eu sou. O sobrinho Yuri era meninote quando Aboiando a vaca mecânica foi lançado. Agora, aos 21 anos, o guitarrista deixa sua assinatura no disco novo do tiozão. Não tem essa conversa de “avalizar” a nova geração, ou “aprender” com os jovens. O que encanta Lula é a devoção da rapaziada ao ofício. Rápida, descomplicada e sem vícios, a moçada não tem medo de ousar. Cá para nós: aqui, todo mundo tem juízo.

Link para a matéria original:
http://www.new.divirta-se.uai.com.br/html/sessao_19/2009/04/19/ficha_musica/id_sessao=19&id_noticia=10211/ficha_musica.shtml

LETRA é tão IMPORTANTE quanto 4LG4R15M0.

•2009/04/04 • 3 Comentários

Eu sou uma pessoa de palavras. Caetano tinha aquela frescura do “adoro nomes”. Romântico e Didático. Era na música “Língua” – Flor do Lácio, Sambódromo – quando ele se divertiu com o rap, que usa a palavra ali falada. Ou a fala cantada. O que importa é a frase, a sílaba, o fonema. Coisas que seriam mais fáceis de sentir e explicar se a gente se comunicasse através de cores. Talvez. Mas como não somos pavões, nem borboletas ou camaleões de verdade, resta o lero. O complexo lero lero. Pós Aurélio.

Lenine tem uma canção que brinca com a nossa peculiaridade brasilista do ÃO – (“Meu pau e meu pão/ Nau de Nassau/ Minha nação“) e depois quando cria com o poeta Carlos Rennó a música “ Ecos do Ão”.

O Ão que, entre as mais faladas línguas do planeta, é uma raridade pitoresca do nosso Português desassotacado, brasiliano.

Lenine é um ser musical. Desde que eu conheço, é aquele galego cabeludo que toca violão e canta pra caralho. Da rapaziada de Boa Viagem. Menos letrista do que eu, Ivan Santos, Zeh Rocha, Bráulio. Na época. Final dos setenta. Depois é que a gente veio conhecer o puta poeta. Também, filho de Geraldo bom-de-verso (e Deise), é predestino.

Adoro um texto dele do “Olho de Peixe” que diz: “ Se na cabeça do homem tem um porão… / Diz aí o que é que tem no sótão”. Aliás esta palavra sótão é incrível. Não só tem o til do ão como ainda tem acento agudo. “Onde moram o instinto e a repressão”. Adoro a expressão: “O homem na redoma de vidro”. ”Permanentemente/ Preso ao presente”. Lindo. Frase que rola sozinha ou no contexto.

Adoro nomes. E se você não conhece essa música vai no site do cara (www.lenineoficial.com.br) e procura a pérola. Nosso compadre também é um texturizador de palavras de mão cheia. Nossas músicas, parcerias, quase sempre começam com um texto meu. Honra da porra. Mas quando aquelas palavras ganham a devida magia, vira música. Condão. Viva o ão.
E de repente, quando vê: os portugais nadaram à míngua. Com essa reforma ortográfica transcontinental. Retoque de língua. E com caráter globalizado. Tiração de excesso.

Camões e Caminha podem ter revirado na tumba. Mas quem levou vantagem foi todo o universo da comunicação lusófona. Quem fala, lê e escreve em português agora tem que se acostumar com as novidades. Até em em braille.

Mas está feliz. Porque o assunto transpira mídia, tem jornal, revista, pay-per-view, tem blog, tem site, vira discussão nacional e ainda atualiza o “Soletrando”, fenômeno de ibope do Caldeirão do Huck. Aos Sábados.

Na reforma ortográfica de 1972, no clímax da ditadura, a gramática também mudou. Mas não teve o burburinho que tem hoje. E isso é cool. Acadêmicos e semianalfabetos já estão compartilhando do mesmo bateboca em chats e programas de auditório. O trema caiu, o hífen ruiu, os acentos desabaram. Papo que ganha a rua. Destrava a língua. Lambe a cidade.

O mais instigante é que a língua emite e transmuta cores “como camaleão”. E se no MSN a galerinha tá escrevendo: Vc, Blz, vlew, btou p/ f., chou d bola, pq, tbm, vc é d+. É o camaleão, inexorável, balançando a língua. A língua viva, especulante e mandrácula, sugando sangues novos, autotraduzindo-se.

Adoro nomes.

Na adolescência me lembro do nome de três meninas, irmãs de um amigo que nunca mais vi: Simônica, Elisabel e Adriângela. Os pais deveriam querer mais filhas, não sei. Adoro nomes. Transmutância da Comunicabilidade. Nem lembro o nome do meu amigo que não vi mais. Tanto faz.

Aí, outro cara me fez a pergunta: o que quer dizer “AZUL INVISÍVEL, VERMELHO CRUEL”? O ar que você respira + o sangue derramado em vão. Ele balança a cabeça afirmativamente. Ainda acho que a melhor coisa pra explicar algo é a palavra.

Luca, três anos, meu pirralho e semblante do cd, descobriu uma palavra, nova pra ele: que PUTARIA é essa! Três anos e já falando putaria. A língua é dele. Viva La Língua Luca. Té já. Faltam poucos dias para o futuro. E eu continuarei te perseguindo, Caetano Veloso. Tentar não mata ninguém.

CALDO DE CANA – primeira do disco no YouTube

•2009/04/01 • Deixe um comentário

Estamos aqui na ilha principal de edição da Luni. Acabamos de montar a primeira música do show de lançamento do “Tem Juízo…” no Teatro da UFPE, Recife . Foram 5 câmeras. Capitaneadas por Leo Crivellare e Jackie Feitosa. Tudo HD e som multitrack. Estamos agora aplicando o som que veio de Carlinhos Borges (Estúdio Carranca).

Começamos pela música título. Engraçado que ela é a décima quarta na ordem do show. É um resfolego de simpatia no meio de um repertório meio denso. Vamos jogar na rede. Daqui a pouquinho vai estar disponível no YouTube. E assim vai ser com todas as outras. Caldo de cana. Moeu, escorreu pelo cano, tá pronto. Cristiano Lemos editou a base e a gente deu pitaco. Agora é de vocês. Espalhem, mandem pros parentes no Nepal e pros amigos no Japão. Só na vibração. Quando tiverem várias canções, daqui a uns dias, juntem tudo num DVD e pirateiem adiante.

  • Rio, Sampa, Araraquara e Porto Alegre são nossos próximos destinos. Depois Floripa, Curitiba, BH, Brasília e Salvador. Se você também tem juízo mas não usa, aliste-se já.

Ao vivo, no YouTube.

ALMA CHEIRA A TALCO.

•2009/03/29 • 3 Comentários

Quinta, 26 de março, 2009. A partir desta data já longínqua, estará lançado o “TEM JUIZO…”. Em Recife, Pernambuco, no grand teatro da Universidade Federal.

Estamos por volta das 3 da tarde. Palco lotado de técnicos, engenheiros de som e luz, projetores, amplificadores, telões, cabos, microfones, mesas de som, rádios de comunicação, um formigueiro de profissionais e equipamentos sobre a madeira corrida do chão. A equipe de filmagem. Leo, Jackie, Ivanildo. Toda a equipe de preto. 5 câmeras. No fundo do teatro, ao lado dos camarins, Carlinhos Borges, em sua cabine improvisada pilotando a mesa Pro-Tools HD. Gravando todo o áudio prum futuro DVD. Ou algo que exista mais novo. Blue Ray, sei lá.

Num show quase convencional como o nosso, existem duas mesas operadoras do áudio principal. Uma no palco, para os fones e retornos dos músicos. Para que a gente escute bem o que está tocando e sinta-se confortável, ouvindo uns aos outros. Outra mesa atrás da platéia. Esta responsável pelo equilíbrio do som que as pessoas ouvem de suas poltronas. A outra para captação ao vivo, já citada.

Broncas aqui e ali, mal contato numa via, pequenos curtocircuitos, problemas com o telão maior (de fundo de palco). Correria. Som passado, luzes afinadas, 8 da noite. O show começa as 9. O que deu, deu. O que não deu, entrega a deus. O foyer imenso do teatro cheio de gente. Guichês de ingresso, roletas girando. Nos bastidores a produção, aviando detalhes. Nós no camarim. Cada um procurando um foco. Ou mantendo o seu. Clima descontraído mas dava pra sentir que o peso da responsa tava ali. Afinal, era o início oficial de uma brincadeira que começou a ser alinhavada anos antes e que agora vai sair por aí, mundo afora. Levando nossa idéia e som avante. O disco, nas duas versões, com e sem encarte à venda por 15 reais.

O show durou 1 hora e 45 minutos. Com participações de grandes e específicos amigos. Spok, Silvério Pessoa, Ortinho, Zé da Flauta, André Julião, Vinícius Sarmento. Mais o bis, que parecia não acabar nunca. Tocamos várias músicas dentro da mesma levada de Rosebud. Por fim, O Fabra deixou o som sozinho. Só a zuada rolando no palco, luzes acesas, platéia de pé. O pontapé inicial estava batido. Pra mim passou rápido. Eu que achava o repertório enorme.

Este show teve uma grande novidade pra gente. Pedrinho Fonseca. Ele foi muito mais do que o cara que fez backing, tocou triângulo, operou os telões laterais. Pedro ativou os circuitos da equipe, juntou gente. Instigou discussão . Participou de absolutamente todos os estágios do processo nesses últimos meses. Feliz e audaz. Sempre empolgado e com a antena virada pra todo lado. Pedrinho é meu compadre de muitos anos. Mas quem conheceu ele anteontem tem a mesma idéia que eu. Talento com audácia e total simpatia. E é ele quem vai postar infooficialmente estas conversas daqui a pouco. Valeu, brother.

Ariano sempre diz em suas aulas: eu falo as coisas por arrodeios, desculpe o desencaminhado das minhas palavras. Queria falar aqui (e em nome de Dani, minha escolhida, minha sócia, minha querida, produtora geral do show e mãe de Luca) uma coisinha só, a mais. Foi do caralho. E outra coisinha a mais. Apenas começou.

Domingo, 29 de março, da Luni, Casa Amarela, Brasil. Daqui a pouco a gente volta ao assunto. Vai começar Brasil X Equador. Obrigado. Muito obrigado.

VIVA O ENCARTE!

•2009/03/20 • 4 Comentários

FALTA 1 DIA PARA O SHOW DE LANÇAMENTO – QUINTA NA UFPE

CAPA do CD

CAPA do CD

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Ainda sou uma pessoa atômica. Feito de átomos. Em meio a pulverização digital. Por isso adoro encarte de disco. O cd pode ser genérico. É apenas uma mídia de transporte, basta que toque bem. Mas tem que ter a capa legal, as letras, fotos, ilustrações, textos, créditos (os créditos!) de quem participou. Senão esvazia o trabalho, perde a noção e subtrai do usuário o prazer físico e intelectual (no bom sentido) de possuir um bem palpável. (O papo tá ficando meio esquisitão mas a vida é feita dessas mini libidos do cotidiano). De poder ajustar o libreto ou a caixinha ao seu campo focal. Degustá-lo – caso seja o caso. E poder andar pela casa, encarte à mão, tomar um copo d’água enquanto assimila seu conteúdo.

Estou me contrapondo a duas correntes que avançam concomitantes na esfera da música. Duas vorazes e velozes tendências da modernidade: a pirataria e o I-Tunes. Não é questão de ser contra. Download é para todos. Essa é uma batalha que já foi vencida. Por eles. Mas que ainda demora alguns anos pra ser consumada no todo, essa é a graça. Uma causa. Um espaço de mercado e de criar novidades. Uma missão de fé. Viva o encarte.

Eu tô dizendo tudo isso pra apresentar o encarte do TEM JUIZO MAS NÃO USA. Eu já falei aqui, em posts anteriores sobre a capa, sobre Luca (o cara da capa), sobre Aninha Barroso que fez a foto. Agora vamos ao miolo.

Zezão Nóbrega é um sujeito aparentemente calmo, caladão, presta atenção em tudo ao redor. Amigo de muitos anos. Além de fazer música eletrônica é um designer de primeira. Foi ele quem criou a logo da Luni, nossa produtora. Também a marquinha do Agora Curta, programa semanal que a gente faz de cinema e passa todo domingo depois do Lance Final, na Globo.

Ligo pra ele: dá uma chegada aqui. Zezão aproveita o horário de almoço da Marta Lima Comunicação, agência onde ele trabalha. Digo logo na bucha: o disco mudou de nome. Vamos recriar o encarte. Pior que o trabalho gráfico anterior estava lindo, sutil. Coerente com o título anterior “TUDO ENZIMA “. O novo nome mudaria tudo. Mas ele percebeu rápido. O conceito tinha voado pelos ares.

Sugeri que a gente mergulhasse no elemento banal, na imagem de coisas frugais do dia a dia vistos por outra ótica, outra lente. Zezão saiu e mandou dois dias depois este material.

PS – Copie, amplie, faça seu próprio encarte e esqueça o que eu falei no início.

Hoje tem Geusa no MySpace.

•2009/03/19 • 3 Comentários

Hoje é quinta 19. Março é um mês que passa rápido. Talvez por eu ter nascido no meio dele. É pau, é pedra. São as águas do rio, aceleradas.

São quase dez da noite e estamos eu, Pedrinho Fonseca e Lucky Luciano aproveitando o silêncio aqui da Luni pra pensar os preparativos pro show. Daqui a uma semana, dia 26, estaremos lançando o disco no Teatro da UFPE. Hoje o ensaio foi bem legal.
Nesse momento estamos introduzindo mais uma música nova no MySpace. Na verdade nem é tão nova assim. Ela surgiu nas gravações do Aboiando a Vaca Mecânica, que Felipe Falcão produziu comigo em 2000. O nome: Geusa.

Eu sempre escrevi sobre mulheres que tem nome pouco usual. Nunca fiz música com nome de Mônica, Márcia ou Sandra. Mas temos Alzira (com Lenine), Dos Anjos (com Lulu Oliveira), Luzineide (com Felipe Falcão), Noite Severina (com Pedro Luís), entre outras.

Porque quem tem um nome assim merece uma homenagem . São prenomes quase em extinção. Me aproprio deles (delas) pra criar minha ficção paralela. Meu próprio desfile de atmosferas e fragrâncias. Imagino que posso, no meu mundinho fuleiro, fantasiar seus nomes de singeleza, tormento e glória.

Stephen Levitz dedica o fim do seu Best-Seller Freakonomics, a prever quais serão os futuros nomes de cidadãos americanos 10 anos depois de ter escrito seu livro. Cruza as classes sociais, cor, grau de instrução dos pais e profetiza como serão batizados os futuros americaninhos do norte. Talvez ele reveja seus dados estatísticos do MIT. E descubra que milhares de gringuinhos, principalmente negros e muçulmanos já estão sendo registrados por seus pais orgulhosos com a tamborilância dos 3 fonemas do momento: Obama. Ou Barack. Stephen não esperava por essa.

Pois aí está – GEUSA. Música nova no MySpace.com/Lula Queiroga. Tem participação de Lirinha, Silvério Pessoa e Pupillo.
Hoje é noite de Geusa.