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Os Morcegos

 

Os morcegos são mamíferos frágeis.

Que voam a noite e dormem de dia

de cabeça pra baixo.

Porque os dias estão de cabeça pra baixo.

Porque o mundo todo está de cabeça pra baixo enquanto o

morcego dorme.

Porque o pescoço dos homens é menos flexível

que o dos morcegos.

Se a lua explodisse

Ou um cometa temporão

Ilustrasse nosso campo de visão

Ou se surgisse um sol a mais

Poderíamos ficar cegos como morcegos então

Mas por curiosidade e distração

Levantaríamos a cabeça.

Porque Todo dia é o fim do mundo.

(lulaq)

Poço da Panela, Recife

O novo e o mesmo

O blog adoeceu um tempo. Eu adolesci ainda mais. Mas tô  de volta ao brinquedo. Obrigado a todos os perdões. Obrigado aos reclamantes. Obrigado aos indiferentes. Thanks all. Até amanhã.”Todo dia é o fim do mundo”. Lulaq

O soco da solidão

O OCO DA SOLIDÃO” (LULA QUEIROGA) 12 / o9 11

Vai doer

vai fazer um buraco no peito

vai ter lua vestida de preto

vai ter sombra na escuridão

Vai sofrer

como tem que sofrer quem amou

E da noite pro dia acordou

No oco da solidão

Mas então

Eu vou aprender pouco a pouco

Amar é remédio de louco

Pra recuperar a razão

Um novo momento virá de surpresa

E vai acabar com a tristeza toda

Que mora no meu coração.

Vai doer, segura

Vai sofrer, mas depois cura.

MEGAZEN

Voar não é só com os pássaros. O que seria um desrespeito à capacidade flutuativa e alada dos poetas e imaginadores. O importante é a própria sombra afastando do corpo. Os saltadores e os budistas levitadores sabem disso. Mas o corpo tem que voltar e cair na real. Conforme a gravidade. Nem as aves ficam eternamente no ar.

O avião é uma ave de alumínio. É claro que todos sabem do que eu tou falando. Airbus, Air France, 447.

Até hoje eu ainda acho improvável um charutão de 300 toneladas sair comendo léguas e nuvens pelos céus afora. Eu nunca tive um pingo de medo. Nunca fui de lutar contra o imponderável. Mas toda vez que acontece uma coisa triste como essa, nos vem a cruel e fragilizante realidade. E o nosso desejo de voar arrefece, assustado. Até voltarmos a confiar plenamente nas estatísticas e esquecermos os destroços boiando no mar de nossas memórias.

Eu e Felipe Falcão passamos de carro pela Lagoa, no Rio, uns anos atrás. Dudu Falcão, irmão de Felipe, chamou atenção de uma placa publicitária onde se lia: Power Yoga. Fiquei pensando naquilo. Yoga pra mim sempre representou meditação, harmonia e paz interior. De repente: Power Yoga. Um plus publicitário decerto querendo apelar para um novo filão energético. Mas ficou na minha cabeça. Escrevi MEGAZEN. Sobre uns acordes de Felipe ao teclado. Só agora no “Tem Juízo…” gravei a música, última do disco. A letra diz assim:

MEGAZEN (L. Queiroga – F. Falcão)
“O monge veio de longe ensinar
Que a lei de Isaac Newton é superstição
Todo mundo pode levitar
Quem finge que tá satisfeito em andar no chão
Vive de ilusão
Deixa a voz do monge te levar pelo ar
Mais alto que um trem, Megazen
Estação primeira do além.

Acelerando as asas no pulsar
De cada músculo do seu coração
Você pode decolar
E visitar parentes no Nepal, amigos no Japão
Só na vibração
Deixa a voz do monge te levar pelo ar
Mais alto que um trem, Megazen
Estação primeira do além
Pelo ar, memória rã
Nada é repetido, Megazen
Todo mundo vive de ilusão.”

Até o próximo voo. Ave.

O CÉREBRO NÃO COLHE FRUTOS NO CANTEIRO DO ÓCIO.

De volta à blogosfera. Novidades pra todo lado.

Tem Juízo Mas Não Usa começa a deslanchar. A tiragem inicial do disco já tá se esgotando. Os shows da UFPE, os dois do Rival (RJ), o Cineport de João Pessoa, foram apresentações memoráveis. O público ultra receptivo nos obrigando a fazer o melhor. Do palco eu percebo as caras das pessoas, curiosidade e vibração. Sempre bis apoteótico, free style.

As datas de Porto Alegre e Florianópolis caíram. Ficou pra julho.

Semana que vem, SP. Dia 21 no Sesc Pompéia, 23 no Sesc Araraquara. Estamos recebendo convites de outros lugares, a coisa tá engrenando.
Hoje saiu um puta matéria n’O Globo. O disco vem sendo bem aceito. Tá criando onda e gerando assunto.

O cenário feito de fotos vem evoluindo a cada dia. As fotos do Flickr cada vez mais apuradas. Graças a vocês já temos um puta galeria de retratos de várias partes do mundo. E o telão enchendo.

Passei uns dias em Sampa, voltei segunda. SP transforma um pequeno final de semana numa overdose de eventos. Tirando o tempo perdido no trânsito, voltei empapuçado de informações, novidades, idéias. São Paulo é um gigantesco painel cultural. Basta ir ao lugar certo, estar com pessoas bacanas.

Fiquei (eu e a torcida do Corinthians) chapado com a exposição de Vik Muniz no MASP. O cara é absurdo. Incansável e absolutamente original. Ele criou com seus trabalhos uma Disneylândia do olhar. Monumental e amarradíssima conceitualmente. Levaria horas contando o que eu senti, concluí, estarreci, choquei, babei. É uma postura tão inovadora diante dos dogmas da arte visual que finda por explodir o conceito tradicional: pintura, escultura, instalação. Tudo isso está ali mas o tal do Vik vai mais longe. Ele fotografa suas peças. Toda a expo é feita de fotos. Enormes, minúsculas, tanto faz. A obra é fotografada e depois destruída. No entanto o impacto é retumbante. Numa das plotagens escritas na parede, ele diz: “ O CÉREBRO NÃO COLHE FRUTOS NO CANTEIRO DO ÓCIO.” É isso aí, caro Vik. O mundo é seu. Eu e Dani saímos de queixo caído.

Numa mesma tarde, passamos na FNAC e na feirinha da Benedito Calixto. Milhares de coisinhas pra ver, mesmo se tratando de points diametralmente opostos, antagônicos. Cybershop x antiquário. Milhares de coisinhas baratinando nosso olhar.

Tomamos chope no Filial, na Vila Madalena. O boteco charmoso e concorridíssimo dos irmãos Altman. Helton estava lá esperando a gente. Encontrei lá meu grande brother Bruno Garcia, que há anos não via, e que está estreando uma peça em SP semana que vem.
Fomos tentar assistir ao Pequeno Cidadão no Pompéia, mas chegamos em cima da hora e a lotação tava esgotada. Deixamos discos pra Arnaldo, Edgar Scandurra e Antônio Pinto, grandes camaradas. É um espetáculo infantil diferenciado, com Arnaldo Antunes fazendo trilha ao vivo. Enfim, perdemos essa.

Mas ainda deu pra ver “O Calendário da Pedra”, na volta aos palcos da magistral Denise Stoklos. Melhor do que nunca. Um monólogo sagaz escrito por ela em 2001 mas de uma atualidade impressionante. Você não consegue desgrudar os olhos daquele magneto humano e seu afiadíssimo rigor cênico. Outra artista mundial brasileira que todo mundo merecia conhecer.

No domingo participei como convidado das três sessões d’O Teatro Mágico, no Itaú Cultural. Os caras fizeram 18 shows em 6 dias. O público dando voltas no quarteirão. Uma rapaziada bacana e empreendedora que conseguiu no talento e na raça criar um fenômeno de empatia com seu público. Lá encontrei Silvério Pessoa e GOG, um rapper de Brasília, queridaço. Os dois também deram canja nos outros dias de show.

Fernando Anitelli me chamou pra cantar com ele “Noite Severina” , “O Verbo e a Verba” e “Ah, se eu vou”. Fui super bem tratado pelo público. Brava galera de Osasco que espalha música e civilidade, bom caratismo e juventude para o seu imenso público Brasil afora. A crítica torce o nariz pra eles, mas eles não precisam de nada. Prensam seus próprios CD’s, DVD’s, são de uma independência surpreendente. Grandes caras. Fiquei feliz de conhecer melhor essa querida família. Gustavo, Fernando e toda a trupe: valeu o carinho e a atenção de vocês.

Segunda, 9 da manhã, o avião decolou e voltamos, eu e minha mulher cheios de maravilhas na cabeça e na bagagem. Até semana que vem, SP. Na segunda a gente volta de case e cuia com toda a banda. Vamos nessa. Canteiro do ócio é o cacete.

Direto do Estado de Pernambuco, do Recife, no bairro de Casa Amarela (sobre os dois posts abaixo).

Obrigado, Minas. Obrigado, Ângela Faria. Obrigado, João Paulo. Obrigado aos mineiros. Estou emocionado.

Lula Queiroga

Direto do ESTADO DE MINAS (por João Paulo).

Seção : Música – 19/04/2009 16:50
Lula Queiroga tem talento e usa

O terceiro disco solo de Lula Queiroga ganhou um nome curioso: Tem juízo mas não usa, título da canção feita em parceria com Pedro Luís, o da Parede. Lula é bom com as palavras. Suas letras são construídas com imagens pouco comuns, vocabulário que mescla cotidiano e palavras vindas de outro universo, construções que dialogam com a melodia, esticando e cortando o fluxo do pensamento. Lula é muito bom de música. Suas canções são modernas sem medo de flertar com maracatu, samba e ciranda. Orquestra, instrumentos e ruídos na mesma levada. Tudo é som. Som é tudo.

Dos discos anteriores (Aboiando a vaca mecânica e Azul invisível vermelho cruel), o novo trabalho mantém a sonoridade que parece soprar do Nordeste em direção ao mundo, uma fusão de rock, eletrônica e música popular brasileira. O cosmopolitismo desassombrado dá as caras nas letras e na ambientação sonora. Assim, as canções falam tanto de tristeza amorosa e de depressão como de sentimento de exílio e estranhamento.

Contador de histórias, Lula Queiroga elege personagens da casa-grande e senzala. É o caso de Geusa, anunciada por poema de Câmara Cascudo, e que exibe o apartheid social brasileiro nas roupas que constrangem e amenizam a culpa da classe média. O cheiro é o tempero de Geusa, alfineta. Mas o cheiro também reflete na fruta em Manga, graviola, hortelã, que aconselha: Colírio no olho da favela. Quem conta histórias anda, deambula, navega e corre. Lula está sempre em movimento. E nessas viagens pode descobrir que Via Láctea cabe dentro de uma dúvida, Capibaribe cabe dentro de uma lágrima.

Moderno também é romântico. Mas um romantismo meio cafajeste, como em Melhor do que sou Pensando alto), com jeito de cabaré, com sinceridade cabotina que não esconde, pensando alto, a melhor forma de seduzir pela falta. A estação do metrô, em Fulana, é o cenário cinematográfico para um rompimento contemporâneo. Mas canções de amor não precisam ser sempre intensas. Muitas vezes jogam para dentro e confessam: No raso também se afoga.

Com vários escudeiros do clã Queiroga, há uma familiaridade que irriga o disco (como os anteriores) de camaradagem estética que aponta para os novos enquanto abraça Lenine, Alceu Valença e Spok. Os instrumentos acústicos, sobretudo sopros ligados à cultura da música de rua, convivem com guitarras e programações e sons aleatórios, mas sempre significativos. Parece um espaço arrumado com a mão: aqui um ruído, ali uma vibração: está pronto o cenário. A partir daí, é só distribuir a poesia.

Link para a matéria original:

http://www.new.divirta-se.uai.com.br/html/sessao_19/2009/04/19/ficha_musica/id_sessao=19&id_noticia=10212/ficha_musica.shtml

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